sábado, 14 de novembro de 2015

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Deixo-te em casa miuda

Começou há uns dias com a possibilidade de te ver, depois continuou com o gosto que puseste na minha partilha. E hoje atingiu-me como um meteoro quando disseste "deixo-te em casa". E deixaste, e conversamos e a cada palavra que dizias eu sonhava com outras. 

Já estou em casa e tu continuaste para a tua, antes disseste "vamos combinando coisas miuda" e eu disse um "claro que sim" entusiasmado. Mal sabes tu a vontade que eu tenho de combinar coisas contigo, de te ver, de te mostrar que não sou a amuada, ensonada e mal disposta que tu te habituaste a conhecer.

Agora em minha casa deambulam fantasias de que tu um dia também poderás estar aqui. Mas não, estás na tua casa e provavelmente já nem te lembras que a festa que me deste nas costas me fez tremer. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Não é o cheiro a tílias molhadas, é o cheiro a outono

Detesto o outono. É o início das chuvas e eu detesto chuva, do vento que eu não aguento, curiosamente só o frio não me incomoda. No outono só gosto do primeiro dia, do cheiro do primeiro dia. Desde que me mudei para Lisboa nunca mais tinha sentido esse cheiro a outono, que não é o cheiro a terra molhada, nem o cheiro as castanhas assadas na rua. 

O cheiro a outono só o sinto em Viseu, só o sentia no primeiro dia de outono. Às vezes podia ser ainda verão, mas ao fim do dia a ir da escola para casa eu sabia que brevemente ia guardar as sabrinas no armário. Pela primeira vez senti este cheiro fora de Viseu, pela primeira vez senti o cheiro duas vezes. 

Passei o mês de setembro é o início de outubro a trabalhar ao fim de semana, não havia saídas com os amigos e saía de casa de manhã e a cidade estava vazia, silenciosa com o peso das ressacas fossem elas do trabalho semanal ou das saídas do fim da semana. No último domingo de trabalho, especial por ser dia de eleições, ao chegar ao jornal senti o cheiro a outono. 

Com gripe e enjoada esqueci-me dos sintomas, o nariz desentupiu-se como por magia e cheirei o outono que estava para chegar, cheirei Viseu, cheirei os meus pais que já não via há um mês, os meus avós, as minhas tias e a minha infância. Percebi, na realidade não percebi apenas confirmei pela centésima vez, que aquele sítio é o sítio onde eu tenho de estar, é a minha segunda casa.


terça-feira, 29 de setembro de 2015

Dois anos depois os mails são só meus

Sabes uma coisa? Não te consigo esquecer. Imagino que te estejas a rir, a pensar em mim a quebrar o meu coração de pedra e logo por ti. Agora que olho para trás, mais crescida e com a vantagem do tempo que passou percebo que podíamos ter sido felizes, que ainda o podíamos ser. 

Lembras-te de te ter contado que quando a minha família ia fazer ski eu ficava com os meus avós? Que os meus pais achavam que era pequenina demais para apreciar aquela viagem e grande o suficiente para ficar feliz por ter uma semana só de mimo. Contaste-me a seguir que não te lembravas da primeira vez que foste a NY exatamente por seres pequeno, que foi a vez que a tua mãe menos aproveitou a viagem. É assim que me sinto agora talvez fosse pequena demais para apreciar a viagem que fizemos juntos. Os três meses mais alucinantes da minha vida. 

Disse-te que não podíamos continuar, que me andava a enganar a mim e a ti. Quando te encontrei mais tarde voltei a enganar-te sorria quando tudo o que queria era uma abraço teu. Daqueles que só tu me sabias dar. Estás aí agora do outro lado do Mar e eu só quero um abraço teu. És única certeza que posso ter, é que um abraço teu ia resolver tantos dos meus problemas.

Há dois anos estávamos a cruzar-nos pela primeira vez, começavam os nossos três loucos meses. Lembrei me disso hoje, eu que nunca me lembro de datas, acordei com a certeza que era uma data especial. Abri o computador para te enviar este Mail. Já esteve maior, apaguei dois parágrafos, achei que não merecias que te obrigasse a lê-los. Tu que foste para aí para mudar de vida, que estás tão feliz, que tens a vida a dar-te o que mereceres, não precisas de mim a dizer o que não devo.

Acabei por não te enviar o Mail, foi respeito por ti e falta de coragem. Foi o adensar do sentimento de culpa que tenho, culpa por te ter dito que não ias entrar em 2014 comigo ao lado, culpa por não te ter pedido para ficares em Portugal pelo menos até 2016. Meu amor, chamo-te assim agora com a certeza de que o és, desculpa. Hoje faríamos 2 anos se eu não tivesse sido demasiado nova

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

High on life

Sobe-se a encosta, às vezes de lado para passar um carro, para escapar das chamas do churrasco ou para escondermos as pernas despidas de um muçulmano. A meio do caminho começamos a arfar, os pulmões vão acusando os cigarros, as pernas a falta de exercício, a cabeça vai vazia. Por ruas e ruelas pelo choque das culturas, pela mistura do tradicional com o moderno, pela confusão entre o antigo e o abandonado com o novo e o recuperado. 

Quando estamos quase a suplicar a uma força superior para nos levar viramos à direita e chega-se. Chega-se lá. Là em baixo a cidade que ficou para trás cheia de história, de confusão mas também com o trabalho e os problemas. Cá em cima só a paz. É só paz que se sente.

10 metros chega-se lá. Lá, o sítio onde a minha vida entra em pausa, onde respiro de pulmões livres e coração limpo de problemas. É lá, com pouca gente, gente que não faz perguntas e que não quer saber. É lá que há a minha vista preferida da cidade, lá é o sítio onde vou ressuscitar quando estou a morrer, é lá que a vista me enche a alma. 

Lá em cima, fico high, high on life. É das coisas mais pirosas que disse, mas das mais verdadeiras também.

Verdades absolutas


quinta-feira, 23 de julho de 2015

O cancro de Laura, Judite de Sousa e a falta de consciência do grupo Cofina

Desde crianças que somos educados sob um mote que nos ajuda a tomar as decisões mais complicadas. Mães, pais e avós iam-nos ensinando o livre arbítrio com a simples expressão "se não gostas que te façam a ti, não faças aos outros". Fomos assim aprendendo a crescer, a viver e a sobreviver em sociedade. Depois crescemos e ao crescermos aprendemos que o livre arbítrio é lixado,  e que as circunstâncias vão mudando.

Por defeito profissional essa frase continua a liderar os meus dias. Uma profissão que  torna  muito ténue a linha entre informação e voyerismo, e onde diariamente me debato com a necessidade de partilhar com alguém histórias que não me pertencem e perceber se devo ao não contá-las. Costumo perguntar, como que em exame de consciência, "e se fossem os meus pais ou os meus irmãos?" Consigo assim ir acalmando a minha consciência e dormir à noite. Tenho o orgulho de poder dizer que já disse "não" a muitas histórias - como quando me pediram para fazer a listagens de atletas que tinham assumido a sua homossexualidade - mas também tenho que admitir que já disse "sim" mesmo quando a minha consciência me dizia o contrário - como quando liguei para o Manuel Serrão no momento em que o seu pai tinha entrado em coma após um atropelamento. "E se fosse o meu pai?" Se fosse não iria querer que alguém que não me conhecia me ligasse, para saber notícias que apenas queriam vender jornais ou ter mais visualizações. Mas foi neste momento que me apercebi que há circunstâncias diferentes e atenuantes, o Manuel Serrão e o pai são figuras públicas, e aqui saliento o facto de o pai dele também o ser, de haver um claro interesse da população em saber notícias fosse por sincero interesse ou apenas por voyerismo.

Com esta breve explicação, que se alongou mais que o pretendido, este é um grito à consciência - se é que a têm - dos diretores de um dos mais poderosos grupos de comunicação portugueses, o grupo Cofina. Que ao longo dos anos nos foi habituando a um tipo de jornalismo, a que não se devia chamar jornalismo, mas que tem provado ser a fórmula mais poderosa para fazer dinheiro. Ao grupo Cofina venho apelar, enquanto colega, leitora e cidadã que pare. Já chega. Já chega da campanha negra, do aproveitamento da vida privada de uma mãe, de uma colega, de uma mulher que perdeu o filho. Se os diretores mandam é dever do jornalista - na verdadeira acepção da palavra - dizer não, é essa a independência que nos permite ser respeitados.

Depois das capas que venderam com o cancro de Laura Ferreira - quando mais nenhum grupo o fez - depois das teorias da conspiração acerca da promiscuidade entre o cancro de Laura e da campanha do Primeiro Ministro, chegam as imparaveis imagens do André Sousa Bessa, dos problemas da Judite e da vida privada a que só a ela diz respeito. Faço minhas as suas palavras o André "não era uma figura pública". Parem! Basta! E deixo-vos a pergunta "e se fosse o vosso filho? E se fosse a vossa mãe?" São totalmente desprovidos de emoções ou conseguem ter relações familiares que vos façam por no lugar daqueles sobre quem escrevem? O papel de um jornalista é também fazer escolhas, a liberdade de expressão é também a liberdade de consciência e o poder de se tomar a atitude certa. Os caminhos fáceis nunca levaram a lado nenhum e devo lembrar que aqueles que não têm coluna vertebral estão presos a uma cama, não têm liberdade.